Recordar alguns aspectos da Murtosa da nossas meninice ou do tempo dos nossos antepassados dali é ajudar-nos a reviver. Convido aos membros de Murtosa dos Murtoseiros a fazê-lo.
Ida aos pássaros
Hoje recordo o tempo que passava a armar a palma aos pinta-roxos, aos pintassilgos... Logo de madrugada, eu e o meu tio Manuel Galvão (já falecido), lá íamos para a Cambeia levando numa mão a gaiola do pintassilgo chama, e noutra a chama de pinta-roxo e ainda a a palma. A armação desta era quase uma celebração. Feita com muito cuidado para que, quando puxada, ela caísse bem e apanhasse o/s pássaro/s. Dentro da palma de rede de malhar ficava a gaiola do pintassilgo, para que os pinatssilgos vadios viessem e pousassem em cima dela. No chão, muita alpista, para que pudessem comer os pinta-roxos e pinatssilgos que seríam surprendidos com a rede da palma puxada por um fio por mim ou pelo meu tio... Depois criávamos no viveiro, ou em gaiolas individuais, os pássaros apanhados...
Quem não se lembra do Rael?! Tanta vez eu o vi na praça em frente da Igreja Matriz da Murtosa pregando o seu "sermão". Alguns diziam que aquilo era indício de chuva no outro dia. O Rael gostava muito de papéis. Procurava papel em todo o lado. Na casa dos Escuteiros, quando conseguia entrar, dava aviação a resmas dele. O Alfredo Cabeça, grande homem, vinha de lá com uma "simbólica" tábua e Rael punha-se de cu para o ar à espera do castigo que era semre só de enxutar as moscas. Em dia de casamentos de amigos, o Rael lá ia como convidado de honra. À falta de lugar no carro, o Rael dispunha-se até a ir na mala do mesmo. Uma figura típica que se foi naquele malogrado acidente!... Que pena, a Murtosa ficou menos alegre.
Outra figura da Murtosa, que não era murtoseiro, era o Zé das Tardes. Lá vinha, mais tarde do que cedo, à frente da burra que lhe puxava a carroça da farinha. Descalço, apressado, e todo enfarinhado, procurava distribuir o mais depressa possível a farinha necessária para o pão nosso de cada dia de todos, e também para a mistura da lavagem dos animais. O Zé das Tardes também vendia o milho que tinha iguais funções. À passagem do Zé das Tardes, a rapaziada miúda da Gafanha Baixa metia-se com ele e fazia questão de subir para a carroça! O Zé sacudia a veleidade da miudagem com um ramo de uma qualquer árvore do qual a burra também se alimentava. Um dia, o Zé deixou de vir às tardes, e nem cedo mais alguém o viu. A minha avó não tardou a concluir;"Lá se foi o Zé das Tardes.... Pai nosso e Avé Maria!ª...
Homem do tudo ou nada! Quem preferia a Murtosa no marasmo em que se via, quase lhe tinha ódio. Ele chegou, viu e venceu. A Murtosa ficou de repente tão para melhor. Padre, Presidente da Camara, e Homem lavrador. Um vitorioso. Agarrado ao seu tractor encontrou um dia a morte. A Murtosa chorou a perda do seu ente querido, mas para sempre ficou o seu exemplo. E os homens que se seguirem no leme da "barca" da nossa querida terra não chamem a si os louros todos, que o Padre António Morais também lançou, e de que maneira, a Murtosa no progresso. Bem haja!
MENDIGO TODOS OS DIAS E ENGRAXADOR AO FIM DE SEMANA
Na loja do meu pai fui eu quem tantas vezes trocou os "miúdos" ao Zé conseguidos na safra do mendigar. Ia ele, mai'la mãe, logo de manhã para onde não os conhecessem bem, para que o estender da mão rendesse ainda mais; Veiros, Estarreja, e Salreu eram poisos habituais. Regressavam pela tarde dentro, ele sempre apoiado nas suas muletas, que o Zé era manco, e como tal também era conhecido por Zé Manco. Dizia eu que regressava ele, mais a santa da mãe, mas muitas vezes já ambos traziam como companhia um copito a mais que os trocos permitiram. Falar em mulheres ao Zé Manco, era deixá-lo eufórico! Enchia as bochechas, batia com o punho no lado esquerdo do peito, e atirava: " Até Faz Sangue... Até faz sangue". A lenga-lenga valeu-lhe a alcunha de Faz Sangue. O Zé além de ser o Zé Manco, passou também a ser Zé Faz Sangue! O Zé era engraxador ao sair das missas de Domingo. A devoção com que tratava os sapatos de tantos clientes, fazia-lhe aumentar a safra em mais uns valentes tostões de gorjetas. O Zé era um homem bom, amigo de todos. Apoiado nas suas muletas, passava as horas de ócio apanhando o sol do fim de tarde no lugar conhecido por Coval. Todos salvavam o Zé, e a todos respondia com um sorriso!... Homem bom, e uma grande figura da nossa terra.
O Mário era cavador nas horas vagas, engraxador em part-time, e dedicado a outras actividades se requisitado a troco de vintém e meio ou até só pelas sopas!... Aconteceu que um dia o homem se largou. A coisa foi mesmo de pasmar, que se supôs logo que aquilo tinha dado em papas. Daí até à alcunha foi um já. Passou a ser Mário Papas. Era o pobre aparecer na rua, e logo o coro da garotada, e não só, se fazia ouvir: Têu, têu... Mário Papas!... Ele em vez de ignorar, zangava-se, corria para agredir, mas parava, que ninguém o levava a sério. Depois ainda acabava por dar um sorriso e abraçar quem o chateava!... Um homem de bem, o Mário, sempre disposto a perdoar. Tive o prazer de nos últimos anos que passei na Murtosa tê-lo sentado na minha mesa da Ceia de Natal, que o Mário merecia, que o Mário era bom, e estava só, que a sua mãezinha já Deus a levara. Tantas vezes ficava com pena do Mário por o fazerem, e alguns exageradamente, um bobo forçado da festa... Mas, Deus já lhe terá dado em dobro, aquilo que alguns não lhe deram, a Paz...
Lembo-me desse dia como se fora ontem. Era ainda pequena mas uma vez que fui nascida e criada na Murtosa, lembro-me muito bem dele. Ele era uma das pessoas mais gentis que ja conheci. Nao tinha um pedaco de maldade no coracao. Toda a Murtosa sentiu a sua falta.
Quando escrevi falava do rael, mas conforme continuei a ler lembro-me tanto do rael como do Mario. Traz-me lembrancas de quando era pequena e a minha mae sempre me dizia "nao lhe chames teu teu que fica chateado e vai atraz de ti". Mas nos sempre o faziamos e ele sempre comecava na brincadeira.
Deves ser, se calhar, filha de gente de muito perto de onde vivia o Mario ou o Rael. Estas figuras da Murtosa, e outras das quais vou falar, marcaram muito a nossa criancice, juventude, ou princípio da nossa idade de adultos. Está atenta que outras figuras que conheces ou conheceste vão aparecer por cá.